''Simulações & Simulacros''
Written on 26.1.10 by Gustavo Stevanato
As redes sociais dão links a imaginação das relações humanas. Mas como pensar relações engendradas na artificialidade? Luís Cunha, Professor e Doutor em Antropologia da Universidade do Minho as discute.
Asterisco*blogue: Professor Luís Cunha, como as novas relações sociais por intermédio das redes sociais, o mais recente produto de comunicação e tecnologia desenvolvidos ao consumo da sociedade, são afectados e recebidos como instrumentos de interacção do âmbito social?
Luís Cunha: Eu penso que um aspecto importante tem a ver com o modo como essa proximidade das pessoas, esta mesma ilusória em determinado sentido, funcionou para modificar a nossa imaginação de quem está do outro lado. Isto é realmente muito diferente do que se tinha nas comunicações convencionais. Não tem a ver apenas com a velocidade que a comunicação adquiriu, mas também é um facto acerca de como nós imaginamos a comunicação. Estes outros sistemas permitem a interacção entre várias pessoas em simultâneo e permite compartilhar e cruzar o conhecimento de uma forma que antes não existia. E isto de facto introduz alterações significativas no próprio tempo, espaço que nos desenvolvemos.
A*: Em certa forma, os avanços tecnológicos são sempre considerados avanços, e respectivamente evoluções significativas na percepção das pessoas, ao todo caso, mas não deixam de causar em seu impacto, algumas reconsiderações. Quais seriam os malefícios/prejuízos ou ressalvas a serem feitas a comunicação engendrada nas redes sociais?
LC: Ao mesmo tempo que as redes sociais fomentam esta imaginação, pode criar uma artificialidade para as pessoas. As realidades não existem propriamente, e cria-se uma certa ilusão, o que tem a ver com aquela imaginação que referi a transformar as relações de espaço e tempo. Não sei se estas relações, bem como alterações, são necessariamente ou devidamente perigosas, mas sem dúvidas, problemáticas ao que se refere, mais uma vez, a esta artificialidade. Estes simulacros acerca de quem é, o fomento do interesse a descobrir quem são as pessoas de um lado e de outro acaba por encerrar as próprias relações sociais, ou seja, a própria contribuição e medida das pessoas na participação na comunicação social. As relações acabam por reduzir-se ou ficar diminuída as estas simulações e representações sociais. Isto parece perigoso a estes termos circunscritos. Mas ao ter a comunicação em níveis mais amplo, a tratá-la neste momento por sistemas de informação e a circulação desta informação nas plataformas de comunicação da sociedade, a abordagem deve ser diferente. Se por um lado esta multiplicação dos canais através dos quais a informação passa e é recebida permite que exista mais informação a circular, é interessante quando lhe cabe o papel de combater a concentração ou monopolização dos meios de comunicação.
A*: Vista esta dualidade e certo maniqueísmo encerrados na mesma plataforma de comunicação, a considerar as valências e responsabilidades destes meios, como avaliar a inserção destas em um meio académico, a tratar, a Universidade?
LC:Parece que em sua própria história estes meios começaram no meio académico. Funções a conhecer desde a mais simples, como o correio electrónico, começaram a serem criadas nesta dimensão. E diria, que de facto, é o local mais adequado para se utilizarem estas tecnologias. A Universidade em sua própria etimologia traz essa ideia de universalidade, geração de conhecimento e participação com ampla possível. Mas talvez a principal questão seja a orientação destas comunicações. Claro, isto ainda é um campo em exploração, e sim, pode resultar em um produto devidamente interessante. Mas por outro lado, penso que seja perigoso ao ensino em sua tentativa de substituir o face-to-face. Há que se crer que, de todo modos, ainda são possibilidades oferecidas por este tipo de comunicação, mas deve saber seus limites, a não tornar o ensino, a forma de saber muito artificial, e principalmente desfocado dos seus agentes. Isto não parece bem.
A*: O senhor, como professor, consegue perceber as mudanças ou alterações que nos referimos e relacionadas como características conferidas por estas novas tecnologias no circunscrito âmbito e trato do ensino universitário?
LC: Do ponto de vista do trabalho académico, isto nota-se, e muitas vezes não sob uma perspectiva positiva. Aquilo que se nota é que existe uma recorrência cada vez maior a estas novas formas de tecnologias, principalmente feita de uma forma pouco criteriosa: Pode-se arrancar com facilidade a internet, quando é preciso trabalhar um conceito, ler algum autor, e isso por vezes substitui exercício importantes de reflexão que é a própria discussão e leitura dos autores. Ler um livro, aprender o livro; ler um texto, aprender o texto; A internet tem este privo de descentrar o trabalho do aluno. Neste nível, nota-se muita transformação. Em outro nível, no próprio modo como os alunos se relacionam, se vêem na universidade, se pensam inseridos num ambiente académico, é mais difícil certamente falar uma vez que é oriunda da vivência pessoal dos alunos, mas é difícil negar que estas tenham permanecido intactas.
Dr. Prof. Luís Manuel Jesus Cunha, Licenciado em Antropologia Social e Doutorado pela Universidade do Minho. Actual Director da Secção de Antropologia da Universidade do Minho.
